Nesta postagem eu expressei meu ceticismo com relação a essas “novas facilidades” para a entrada de estrangeiros que o Japão às vezes inventa sem trabalhar também nos japoneses o acolhimento e uma maior vontade deles de integrar estrangeiros à sociedade japonesa. Como eu disse, toda relação humana adulta, saudável e madura EXIGE esforços de TODAS as partes envolvidas, senão se torna uma relação questionável e até algo a se evitar.
Eu gosto de debates, do contraditório, porque isso me ajuda a reforçar as minhas opiniões ou mesmo a refletir com mais cuidado sobre elas. Eu costumo usar esse argumento ao cobrar mais esforços por parte dos japoneses e certa vez um comentador disse que eu não deveria criticar os japoneses, pois, por exemplo, se alguém quer entrar para um grupo religioso é a PESSOA QUE QUER ENTRAR que tem que se adaptar ao grupo religioso e não o grupo religioso que tem que se adaptar aos “de fora”.
Em um primeiro momento esse argumento parece correto, mas ele É FALSO, por dois motivos, que apontarei e depois desenvolverei mais:
(1) De fato, quem deseja entrar para um grupo religioso é quem tem que se adaptar a ele. CONTUDO, uma vez que a pessoa se adapte ao grupo religioso, ELE SERÁ TRATADO INTEGRALMENTE COMO PARTE DO GRUPO;
(2) Grupos religiosos podem até não se adaptar a doutrina aos que estão fora. Contudo, tendem a se adaptar na questão da FORMA para tentar captar novos seguidores.
O ponto (1) é o que, a meu ver, mais derrete o argumento do comentador, pois não é difícil encontrar relatos pessoais, reportagens, estatísticas e estudos acadêmicos que apontam que, mesmo que estrangeiros aprendam a cultura e língua japonesa, eles continuam sendo vistos como alguém de fora, não tendo as mesmas oportunidades e mesmo tratamento que os japonês dão a seus pares. Lembro-me de ouvir um psicólogo explicar por que a religião se torna para muitos algo tão forte e importante: justamente por que grupos religiosos tendem a oferecer acolhimento incondicional (completo) aos que se estão dispostos a aceitar o sistema de crenças. Com isso, a pessoa se sente PRESTIGIADA e, consequentemente, encara isso como um FACILITADOR para melhorias para outras áreas de sua vida, como mais ofertas de emprego, de carreira ou mesmo mais facilidade para encontrar amigos e um relacionamento afetivo.
Isso é óbvio, não é? Como sempre digo, quanto mais prestígio social, mais oportunidades. E nisso, infelizmente, o Japão e os japoneses erram muito de maneira geral. Usando a linguagem religiosa, é como se quisessem seguidores de sua língua e cultura, mas não estivessem dispostos de fato a oferecer o mesmo acolhimento incondicional (completo) aos estrangeiros que desejam “aceitar” o “sistema de crenças japonês”.
O ponto (2) ajuda a derreter ainda mais o tipo de argumento do comentador, pois religiões tendem a não mudar a doutrina, mas atualizam constantemente a FORMA DE EXPRESSÁ-LA para conseguir novos seguidores. Até por que em religião também existe concorrência e não raramente nos deparamos constantemente com pessoas que vivem mudando de religião. Ora, existe também concorrência entre países por mão de obra estrangeira, então, o Japão precisa também atualizar as formas usadas para tentar atrair estrangeiros.
Em outras palavras, vejo o Japão falhar nesses dois pontos: tanto pela falta de esforços por parte do Japão no acolhimento e integração dos estrangeiros, quanto pela FORMA que muitos criadores de conteúdo e políticos japoneses têm usado, criticando os estrangeiros constantemente.
Como a analogia é com religião, quem gostaria de entrar para um grupo religioso que só sabe apontar o dedo e nunca oferece de fato acolhimento incondicional (completo) mesmo aos que desejam “aceitar” o seu sistema de crenças se existem muitos outros grupos religiosos para a pessoa escolher? Assim como existem muitos outros países para uma pessoa imigrar…
O problema dos fanáticos pelo Japão é que eles não gostam de fato do Japão. Provavelmente diriam que estrangeiros não vão mudar o Japão ao criticá-lo. Contudo, como tal postura tende a prejudicar a imagem do Japão, estrangeiros podem (começar a) deixar o Japão para trás na sua lista de opções. E a pergunta que fica é: se o Japão for deixado massivamente para trás, japoneses e estrangeiros fanáticos pelo Japão darão conta do recado?
Acho que nem o governo japonês acredita nisso…
Deixe-me contar uma coisa sobre mim: Eu sou católico e certa vez ouvi de um padre a seguinte reflexão: o mundo tem cerca de 8 bilhões de habitantes e cerca de 1,5 bilhão de católicos no mundo. Ou seja, existem mais pessoas não católicas e/ou indiferentes ao catolicismo no mundo do que pessoas católicas. Se queremos que essa grande maioria de pessoas se tornem católicas, é apontando o dedo que elas virão até nós?
NÃO! Isso só gera mais aversão e indiferença aos católicos!
Essas pessoas só virão até nós se OS PRÓPRIOS CATÓLICOS (e somente os CATÓLICOS) se esforçarem para serem imagem de Cristo para eles, tanto no exemplo de vida quanto no acolhimento das pessoas. Além disso, são os CATÓLICOS que precisam ter mais filhos.
Óbvio, não?
Agora troquemos catolicismo e católicos por Japão e japoneses: o mundo tem cerca de 8 bilhões de habitantes e cerca de 120 milhões de japoneses no mundo. Ou seja, existem mais pessoas não japonesas e/ou indiferentes ao Japão e a sua cultura e língua no mundo do que pessoas japonesas e fãs do Japão. Se queremos que essa grande maioria de pessoas comecem a apreciar o Japão, sua cultura e língua, é apontando o dedo que elas virão até nós?
NÃO! Isso só gera mais aversão e indiferença ao Japão!
São os fãs do Japão os japoneses que precisam ser exemplo de conduta com relação às regras sociais japonesas e acolhedores. Além disso, se a identidade étnico-cultural é REALMENTE tão importante para os japoneses, cabe aos japoneses (e somente a eles) terem MAIS FILHOS.