domingo, 1 de fevereiro de 2026

SOBRE OS JAPONESES NÃO PRECISAREM DO CRISTIANISMO

Há alguns meses, um youtuber (que aqui não me interessa dizer quem é, pois o importante para mim é a ideia e a argumentação) disse, em outras palavras, que, ao tentar evangelizar um japonês, recebeu dele a resposta de que os japoneses não precisam do cristianismo, pois os japoneses não precisam de uma divindade e do medo do Inferno para saberem o que é certo e o que é errado. Segundo o japonês, os cristãos só fazem o bem por medo do inferno. Também disse que ele não precisaria do cristianismo, haja vista que o Brasil, um país cristão, é um país extremamente violento.

Resolvi comentar isso só agora, pois gosto de papos filosóficos feitos em meio à calmaria e não em meio a emoções, como numa torcida de futebol.

Embora essas afirmações soem sofisticadas e corretas, elas se sustentam sobre uma falsa oposição: a ideia de que, sem um Deus religioso, restaria apenas a consciência individual livre de qualquer força moral reguladora. Essa oposição simplesmente não existe na prática. Eu diria que todo ser humano tem um “ente moralizante fora dele”: se este ente moralizante fora dele não for uma divindade, ele será a PRÓPRIA SOCIEDADE, por meio de suas tradições, costumes, leis e… sobretudo PUNIÇÕES, sejam essas punições vindas de outras pessoas (como o bullying e a exclusão social), sejam elas vindas das autoridades competentes (multas e prisões). Sendo assim, no Japão, o papel moral que o cristianismo exerce no Ocidente é feito através de outros métodos, mas o mecanismo é exatamente o mesmo.

UM ENTE EXTERNO AO INDIVÍDUO DEFINE O QUE É CERTO E ERRADO,  ESSE CÓDIGO MORAL É REPASSADO AOS INDIVÍDUOS, QUE SOFREM PUNIÇÕES SE HOUVER DESVIOS

Se os cristãos pregam o inferno depois da morte aos desviados, esse mesmo inferno (entendido como punição) existe sim para os japoneses desviados (na forma de bullying e exclusão social, por exemplo). Se os cristãos só fazem o bem por causa do medo do inferno, porque não admitir a possibilidade de que os japoneses só fazem o bem por medo do “inferno” que pode vir da sociedade? O comportamento correto dos japoneses pode não ser regulado pelo medo de uma punição transcendente após a morte, mas é regulado pelo temor constante de envergonhar o grupo, perder reputação ou ser socialmente excluído. Nesse sentido, o “Inferno” não desaparece; ele apenas muda de lugar. O “ente moralizante” (fora do individuo) também não desaparece: para os cristãos (ou religiosos no geral) o ente moralizante é uma divindade; para os japoneses, a própria sociedade com suas tradições e costumes.

Se os cristãos (ou religiosos) acabam sendo mal vistos por fazerem proselitismo como se não houvesse coisa boa fora de seu código religioso, os japoneses também podem acabar sendo mal vistos por seu “proselitismo cultural” (vide os constantes ataques recentes a estrangeiros depois do aparecimento do Sanseito ou mesmo as atrocidades do imperialismo japonês num passado recente). Ora, se os cristãos (ou religiosos no geral) deveriam impor sua conduta moral apenas aos seus adeptos e da porta para dentro do templo, por que os japoneses não deveriam fazer o mesmo (apenas para quem gosta do Japão e está dentro do Japão), sem ficar atacando de forma generalizada estrangeiros ou, no passado, tendo projetos imperialistas e cometendo atrocidades? Ora, assim como pessoas têm o direito de não se interessar por uma doutrina religiosa, ninguém é obrigado a se interessar pela cultura do Japão não estando no Japão. Por que atacar o Brasil por haver muitos homicídios e roubos, já que isso indica justamente a falta de um “ente moralizante”, seja ele a religião ou a própria sociedade, apesar de muitos brasileiros usarem uma fachada de religiosidade? Além disso, se for para pinçar os maus exemplos para dizer que o todo não presta, então nenhum grupo presta, pois em todos os grupos há as laranjas podres.

Finalizando, nenhuma sociedade vive sem um princípio moral regulador. Quando Deus deixa de ocupar esse lugar, a sociedade o assume. O que muda não é a existência do medo moral, mas apenas de quem se tem medo. Analisando friamente, não existe (ou raramente existe) indivíduo moralmente livre e que espontaneamente faz as coisas. Seja pela mão de Deus, seja pela mão da sociedade, nossa consciência acaba sendo guiada por um ente moralizante externo que de qualquer jeito nos pune em caso de desvios.