quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

SOBRE OS JAPONESES NÃO PRECISAREM DO CRISTIANISMO–PARTE 2

Nesta postagem tratei de elaborar um contra-argumento para a ideia de um japonês com quem um youtuber teve uma interação sobre os japoneses não precisarem de cristianismo para praticarem o bem, como se o bem praticado pelos cristãos fosse apenas resultado do medo do inferno e não de uma consciência individual livre e espontânea (como supostamente acontece com os japoneses).

Na referida postagem eu disse que essa ideia é FALSA, pois, não existe (ou raramente existe) indivíduo moralmente livre e que espontaneamente faz as coisas. Seja pela mão de Deus, seja pela mão da sociedade, nossa consciência acaba sendo guiada por um ente moralizante externo que de qualquer jeito nos pune em caso de desvios. Sob essa ótica, se os cristãos são condicionados a fazer o bem pelo medo do inferno, os japoneses são condicionados a fazer o bem pelo medo do “inferno social” (exclusão social, bullying, etc.) causado por seus desvios de conduta.

Ampliando a minha argumentação, ironicamente grande parte do código de conduta social japonês atual nasceu de influências religiosas do passado (budismo, confucionismo, xintoísmo e, mais recentemente, o XINTOÍSMO DE ESTADO!!) – note aqui a presença da influência religiosa no Estado, algo que muitos criticam que o cristianismo fez!! Como mencionei na seção “Como Aprender?”, Ricardo Mário Gonçalves, professor de Religião e Pensamento Japonês da USP, diz que o "xintoísmo de estado" surgido na Era Meiji (1867-1912) foi uma "construção totalmente artificial promovida por líderes modernizantes que pretendiam criar uma ideologia nacionalista para unir o povo em torno de símbolos que representassem o novo Japão". Ainda, conforme Leonardo Henrique Luiz, Graduado em História pela Universidade Estadual de Londrina e mestrando em História Social pela mesma instituição, “o xintoísmo de Estado foi um importante elemento da organização social japonesa a partir da Restauração Meiji até o final da Segunda Guerra Mundial, exercendo um papel central na vida dos japoneses”.

Guarde bem isto:

O "xintoísmo de estado" surgido na Era Meiji (1867-1912) foi uma construção totalmente artificial promovida por líderes modernizantes que pretendiam criar uma ideologia nacionalista para unir o povo em torno de símbolos que representassem o novo Japão e foi um importante elemento da organização social japonesa, exercendo um papel central na vida dos japoneses.

Percebe a existência dos mesmos elementos (religiosos!!) que muitos criticam no cristianismo? Então, também é uma grande desonestidade intelectual dizer que o código de conduta social dos japoneses não possui elemento religioso algum. A diferença está apenas nos nomes

Outro ponto que eu gostaria de levantar nessa postagem é que, da mesma forma que o fanatismo dentro do cristianismo é prejudicial para o próprio cristianismo, o fanatismo pelo Japão é prejudicial para o próprio Japão e sua cultura. Não há como negar que se o cristianismo é mal visto por muitos hoje, é justamente por causa do fanatismo religioso e hipocrisia (maus exemplos), que fazem alguns cristãos condenarem em vez de acolherem, muitas vezes tendo uma conduta diferente daquilo que pregam. Isso só faz com que pessoas ainda indiferentes ao cristianismo acabem nutrindo em si aversão a ele.

É por isso que sou um crítico ferrenho a qualquer discurso de excepcionalismo japonês e generalização negativa de estrangeiros. Analogamente, isso é justamente o que fanáticos religiosos fazem: julgam, condenam, querem impor as coisas, generalizam negativamente os “de fora”, etc. e, com isso, acabam afastando as pessoas do cristianismo!

Em suma, é uma grande hipocrisia condenar os cristãos e o cristianismo, mas defender o excepcionalismo japonês generalizando negativamente os estrangeiros. Além de ser um grande desserviço, pois isso só vai fazer as pessoas se afastarem do Japão, assim como muitos hoje têm alguma aversão ao cristianismo.