segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O RETORNO DOS MILAGREIROS…

O pessoal pode me achar chato, mas não critico ferozmente à toa a falta de vontade dos japoneses de integrarem estrangeiros aos seus círculos sociais e essa onda generalizada de críticas aos estrangeiros que temos visto ultimamente nas redes sociais. O motivo é simples e quem tem o mínimo de bom senso entenderá: essa atmosfera toda é propícia não só para manchar a imagem do Japão e dos japoneses como também para aquela máxima que diz mais ou menos assim: "inventar dificuldades para vender facilidades".

Ora, com esse terreno propício cedo ou tarde os milagreiros iriam voltar;  eles têm aparecido muito para mim nessas ultimas semanas. Dado todo o contexto, fica muito fácil insinuar algo do tipo:

"Vejam! Os japoneses têm criticado muito os estrangeiros nas redes sociais, mas é por que os estrangeiros NÃO aprendem a língua e cultura deles. Contudo, se você aprender a língua e cultura deles, você será plenamente aceito por eles. Eu garanto! Eis aqui o meu curso que o tornará fluente em 6 meses!"

No "Como Aprender?" já demonstrei que o que existe de fato é, infelizmente, uma BARREIRA ÉTNICA, o que faz com que na prática um estrangeiro NUNCA seja visto como um igual pelos japoneses. E acredito que não deixam clara a existência dessa barreira étnica, porque isso soaria muito ruim nos tempos atuais e poderia afetar negativamente as relações diplomáticas e comerciais. Então, é muito mais conveniente e vago adotar a narrativa de que o estrangeiro é SEMPRE culpado pelo preconceito que sofre por não dominar a cultura e língua.

Há uma vaidade que precisa ser nomeada: a de se achar pertencente a uma casta superior por estar no Japão. Há uma infantilidade que transforma o país em Terra Prometida, como se ele fosse sanar todos os problemas pessoais e emocionais de quem chega. Há uma viralatice que faz com que estrangeiros reproduzam a mesma hierarquia que os exclui, na esperança de que, ao apontar o dedo para o estrangeiro "menos adaptado", possam ser aceitos como exceção. Não serão. A barreira é étnica, não meritocrática.

Por muito tempo, achei que o nicho fosse VÍTIMA dos milagreiros, mas esses mais de 12 anos de projeto me fizeram mudar de opinião. Toda essa narrativa negativa e furada dos japoneses e do governo japonês com relação aos estrangeiros e o pão e circo a que o nicho costuma dar muita moral afasta gente séria do nicho e cria um ciclo muito difícil de ser quebrado.

Eu mesmo posso dizer que o nicho é extremamente culpado pelos milagreiros que brotam por aí: mesmo o projeto sendo TOTALMENTE gratuito em português, há extrema falta de apoio, aparecem PIX de 1 centavo quando lanço algo novo e até brota gente que me manda mensagem dizendo que me odeia e/ou perguntando se conheço algum site bom em português sobre língua portuguesa (sendo que está se dirigindo a um criador de site em português). E etc. Essa falta de apoio é o solo onde os milagreiros germinam: quando a comunidade não sustenta quem constrói, quem constrói se afasta  e sobra espaço para quem vende atalho.

Enquanto esse nicho não deixar de lado a vaidade, a infantilidade, a viralatice e os problemas pessoais e emocionais tratados como se o Japão fosse a Terra Prometida, não há salvação. Os milagreiros irão brotar constantemente, enquanto gente séria se afasta. O ciclo se alimenta de si mesmo: a atmosfera de crítica gera a culpa, a culpa gera o atalho, o atalho gera a frustração, e a frustração gera mais crítica.

Quebrar esse ciclo exige recusar o atalho. Exige apoio mútuo real, não PIX de 1 centavo. Exige paciência estrutural, não promessa de fluência em 6 meses. Exige entender que a barreira não será derrubada por mérito individual, mas por conscientização e apoio coletivo entre os estrangeiros.