Recentemente foi noticiado que a partir de dezembro de 2026 brasileiros entre 18 e 30 anos terão a nova possibilidade de permanecer por até 1 ano no Japão viajando e, para ajudar no custeio da viagem, também trabalhar (atividade acessória à viagem). O período não poderá ser prorrogado e o participante não poderá alterar o status migratório durante a estadia.
Muitos fãs do Japão devem ter comemorado a notícia, mas deixe-me fazer uma análise mais profunda disso, pois comparo esse tipo de iniciativa à política de cotas que temos no Brasil.
Como assim?
Como sou uma pessoa com deficiência física, muitos devem pensar que sou a favor das cotas para deficientes nas empresas. Mas vou surpreender a muitos: sou mais contra do que a favor. Ou melhor, CÉTICO.
E se você leu com atenção o “Como Aprender?”, captou o núcleo das minhas críticas ao Japão: a falta de integração social, de aceitação DE FATO dos japoneses com relação a estrangeiros. Ou seja, mais importante até do que facilitar a entrada, é trabalhar em quem recepciona as pessoas a aceitação, o acolhimento, o desejo de integrar!
Se não houver a espontânea aceitação, o espontâneo acolhimento, o espontâneo desejo de integrar quem chega, a entrada por si só se torna ineficaz, uma mera formalidade, uma mera cortina de fumaça para a verdadeira causa do problema. Como relatei no “Como Aprender?”, eu acredito que não consegui construir uma carreira, pois para a empresa, ela estava apenas cumprindo uma obrigação legal. Não estava preocupada (e legalmente nem precisava se preocupar) com a integração, com o acolhimento, com os desejos e anseios das pessoas com deficiência.
Tanto é que atualmente, até onde eu sei, a lei de cotas para pessoas com deficiência em empresas praticamente perdeu sua natureza. Foram tantos recursos de empresas que criou-se uma jurisprudência que diz, na prática, que empresas já não precisam contratar de fato, desde que estejam querendo cumprir a cota (mas não conseguem por fatores diversos). Talvez por isso eu receba muitas ofertas de emprego, mas nunca sou chamado. Talvez por isso, eu já cheguei em entrevistas em que o entrevistador só perguntou meu nome e disse para aguardar contato. Afinal, basta que as empresas se esforcem para cumprir a lei das cotas, né…
O ser humano não se move por decreto e enquanto o Japão e os japoneses não trabalharem em si a aceitação espontânea com relação a estrangeiros, serei cético, assim como sou cético com relação a lei das cotas. Em outras palavras, facilitar a entrada NÃO é sinônimo de facilitar a aceitação de quem recepciona. Muito pelo contrário: só tende a aumentar a discriminação, aversão e preconceitos, assim como eu sofria preconceito velado e explicito de algumas pessoas na empresa…
A lei da vida adulta é a RECIPROCIDADE. Todo tipo de relacionamento humano saudável e maduro exige esforços de ambos os lados, isto é, não basta o Japão e os japoneses dizerem que os estrangeiros devem aprender sua língua e cultura se o Japão e os japoneses também não se esforçarem para aceitar e integrar DE FATO os estrangeiros. QUALQUER relação humana em que apenas um lado precisa se esforçar já deve ser considerada, por si só, QUESTIONÁVEL e algo a se EVITAR.